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sábado, 10 de outubro de 2015

DO CONTRÁRIO

Após um banho despetalado de mim, cuido da alva pele que me reveste, ressecada pelo tempo, mas hidratada pela serenidade. Despida e quieta dirijo-me a mim. Diante do espelho não vejo o que olho, consciência tenho que minhas retinas me fitam, mas só encontro a menina sem riscos na face, com o seio nascendo, braços e pernas finas, sorriso contido e lágrimas incontidas. Observo o retroceder da cena, o suor dos olhos limpando a trela da maquiagem, o tempo uivando convites e despertando os ânimos esquecidos. Sem demora, a menina que vejo, salta, brinca, ri e chora, esquecida dos olhos ocultos que espreitam seus atos impensados. Ingênua, pensa, ainda, que pode alcançar liberdade e num rodopio fremente ergue os braços e espanta a fumaça que embaça os meus pensamentos. Rodopiando entre fases e lugares, alarga os espaços do passado e do logo mais, entre devaneios e alucinações, gargalho em ênfase ao desabafo dos atos secretos. Entre eus e múltiplos contextos os segredos se desvencilham, encaixa-se na minha Pandora e num desarrumar de formas não fecho, não me fecho. Brinco. Faço-me feliz sem logo mais. Agora. Meu tempo ou minha idade se determinam no malabarismo do vento, eu não enxergo. Quem enxergará? Só do avesso tem segredos para entrar? Quem os sabe além de mim? Não me revelo, me resvalo…
…do contrário não me seria. E hoje me sou!




Bia Cunha & Lena Ferreira

terça-feira, 29 de setembro de 2015

FLÂMULA

Entre o eufemismo e o paradoxo
há um contraponto borbulhante
que enxerga a profundeza do lago

- ostras, riscos, areia, lodo, limo, lança -

Bússola convidativa

Navega em águas calmas, tranquilas
por mares desconhecidos
braçadas na rota rota sem rumo, sumo

Insustentável peso das caudas
derruba o pescado no fundo falso

- freme a flâmula faroleira faiscada de fogo fátuo -


Flutuamos finalmente...




FLÂMULA - Lena Ferreira & Bia Cunha - 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ASSOVIO

Não grite o amor, amor...
Aquiete
a frase, o verbo, o verso e a língua
Ninguém precisa saber de nós
a não ser nós dois e esse silêncio suspenso e macio
Fala baixo, baixinho
que a minha alma se assusta
com lenços caindo ao chão
Sussurra, então, a declaração bendita ao pé do ouvido
ou um gemido miúdo, como um gato no cio
ou um assovio fino, fininho
com sabor de hortelã
Ou qualquer coisa que se assemelhe a brisa
que não avisa quando vai chegar
Mas por favor, não grite...
Aquiete
o vento e o inverso à míngua
Ninguém precisa estar entre nós
a não ser nós dois com o coração
na palma
Então, perceberá que amar é só calma
silente de olhos ardentes, amor
Inquiete
a frase, o verbo, o verso e a língua
em nós



ASSOVIO - Lena Ferreira & Bia Cunha - nov.14