sexta-feira, 23 de outubro de 2015

NEM AS PEDRAS


Peles, poros, cabelos, sentimentos
arrepiam com sua desenvoltura
não lhes escapam os comprometimentos

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Folhas, flâmulas, plumas, inventos
rodopiam com nova textura
não desviam ao seu movimento

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Poemas, pressupostos, luas, segredos
estremecem ao vê-lo passar
não lhes recusam folguedos

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Passos, pesos, ombros, medos
emudecem ao vê-lo cessar
e a cessação é como degredo

pois nem as pedras ficam imunes ao vento



Anorkinda e Lena Ferreira

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

NA MATA

Foi na trilha da mata
que dei o grito
assustei os pássaros
acordei perigos

Desenhei no papel
intolerável sentença
joguei fora os anéis
perdi a paciência

Foi na água da cascata
que reinventei meu rito
ensaiei  novo pouso
construí outro abrigo

E, no azul do mesmo céu,
restaurei a presença 
de um leve viés
à minha consciência



NA MATA - Andréa Iunes & Lena Ferreira - 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

RASTILHO

O sol se vai e deixa rubro
o céu de espera, mês de outubro,
onde lembranças ardem em brilho

De esperança, então me cubro
na quase noite onde vislumbro
o aceno de um outro sibilo

O sol deixou promessas,
o vento enviou as remessas
de paz como um rastilho

De temperança às avessas
na possibilidade de que impeças
o fluir da mansidão em sigilo



Lena Ferreira & Anorkinda

sábado, 10 de outubro de 2015

DO CONTRÁRIO

Após um banho despetalado de mim, cuido da alva pele que me reveste, ressecada pelo tempo, mas hidratada pela serenidade. Despida e quieta dirijo-me a mim. Diante do espelho não vejo o que olho, consciência tenho que minhas retinas me fitam, mas só encontro a menina sem riscos na face, com o seio nascendo, braços e pernas finas, sorriso contido e lágrimas incontidas. Observo o retroceder da cena, o suor dos olhos limpando a trela da maquiagem, o tempo uivando convites e despertando os ânimos esquecidos. Sem demora, a menina que vejo, salta, brinca, ri e chora, esquecida dos olhos ocultos que espreitam seus atos impensados. Ingênua, pensa, ainda, que pode alcançar liberdade e num rodopio fremente ergue os braços e espanta a fumaça que embaça os meus pensamentos. Rodopiando entre fases e lugares, alarga os espaços do passado e do logo mais, entre devaneios e alucinações, gargalho em ênfase ao desabafo dos atos secretos. Entre eus e múltiplos contextos os segredos se desvencilham, encaixa-se na minha Pandora e num desarrumar de formas não fecho, não me fecho. Brinco. Faço-me feliz sem logo mais. Agora. Meu tempo ou minha idade se determinam no malabarismo do vento, eu não enxergo. Quem enxergará? Só do avesso tem segredos para entrar? Quem os sabe além de mim? Não me revelo, me resvalo…
…do contrário não me seria. E hoje me sou!




Bia Cunha & Lena Ferreira

terça-feira, 29 de setembro de 2015

FLÂMULA

Entre o eufemismo e o paradoxo
há um contraponto borbulhante
que enxerga a profundeza do lago

- ostras, riscos, areia, lodo, limo, lança -

Bússola convidativa

Navega em águas calmas, tranquilas
por mares desconhecidos
braçadas na rota rota sem rumo, sumo

Insustentável peso das caudas
derruba o pescado no fundo falso

- freme a flâmula faroleira faiscada de fogo fátuo -


Flutuamos finalmente...




FLÂMULA - Lena Ferreira & Bia Cunha - 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CU VIRADO

Cu Virado

mudo 
o vento do verso 
a rima da rosa 
o cheiro da prosa 
o rumo da oração 
mudo 
o verbo do intento 
o inverso do insumo 
a reta do rumo 
a rota da opinião 
mudo 
o avesso da norma 
a forma da rega
a liga da régua 
a regra da pontuação
mudo
a metade de um terço
a sina penosa
a treva escabrosa
o ritmo da canção
mudo
o cérebro do invento
o disperso do prumo
a análise do resumo
a punheta de mão
mudo
a indefinição da forma
a massa da liga
a vingança da briga
a tônica da acentuação.


Lena Ferreira e Wasil Sacharuk

segunda-feira, 13 de julho de 2015

SONHOS A QUATRO CORAÇÕES


São assim, os sonhos...

Em ondas, vão e vem...
E se renovam a cada avanço ou recuo

Transparentes, límpidos, oscilando entre o azul e o verde
Às vezes cor de fogo, se chegam em turbilhão

Maravilhoso, escutar assim,
as mil e uma cores dos sonhos de verão




                  Ana Sampaio, Lena Ferreira,  MLurdes Carvalho e Alice Sampaio